O poder do rock nos games
13/07/2012
Por Filipe Siqueira
Hoje eles estão sumidos, mas há meros três anos atrás os jogos de rock eram considerados a aposta mais segura na indústria de games quando se queria encher os cofres de dinheiro. E não eram só produtoras de games que encaravam as franquias musicais dessa forma, mas também as próprias grandes gravadoras musicais, que ganharam rios de dinheiros com licenciamento e dos efeitos de uma onda cultural tão poderosa.
No auge da guerra das franquias musicais, de um lado estava Guitar Hero e do outro Rock Band. Para se ter uma ideia da dimensão da disputa, somente o primeiro Guitar Hero gerou lucros de US$ 1 bilhão de dólares, algo do nível de pesos-pesados como Halo e Call of Duty.
Tudo começou em 2005, com o despretensioso lançamento de Guitar Hero, para PlayStation 2. A principal novidade foi o controle em forma de guitarra. Apesar de não ser inédito, era revolucionário, e virou mania imediata. O modelo escolhido para a guitarra era uma Gibson SG, utilizada por gente como Frank Zappa e Carlos Santana. Era mais fácil jogar com um joystick do que com a guitarra, mas não tinha nenhuma graça. Era como assistir um show de rock pela TV, se perdia todo o espírito.
Guitar Hero tinha tudo na medida: 30 porradas certeiras em forma de músicas de rock, dificuldade crescente - a dificuldade easy deixava até sua vó mandar alguns perfects, com algum esforço, enquanto o hard, bem... era para legendários -, extras na forma de músicas independentes semi-obscuras. Os frutos de um trabalho tão bom vieram na forma de vendas gigantescas, prêmios, críticas positivas e a conquista do mundo.
Nada era mais rock do que jogar Guitar Hero. Mandar um perfect em Ace of Spades, do Motorhead (ou Bark at the Moon, do Ozzy Osbourne) era o equivalente dos anos 2000 a detonar o Bowser em Super Mario Bros 3.
Obviamente que algo tão literalmente rock 'n roll como Guitar Hero, merecia uma sequência. E ela veio a altura. Um ano depois, em 7 de novembro de 2006, chega Guitar Hero II, com 64 músicas dos mais diferentes gêneros (e menos clássicos), e outra Gibson como joystick. As mudanças também elevaram o que já era tão perfeito quanto um hit punk dos anos 60: o sistema de reconhecimento de notas foi melhorado, além da chegada de um bem-vindo modo cooperativo, onde um jogador assumia as guitarras enquanto outro ficava no baixo.
Mas algo assim não estava destinado a durar sem passar por problemas. E eles vieram na forma de uma complicada confusão corporativa. O primeiro Guitar Hero foi desenvolvido pela Harmonix e distribuído pela RedOctane. Enquanto o estúdio foi comprado pela MTV, a editora foi adquirida pela Activision, que já era parceira na distribuição.
O que se seguiu foi um interessante racha entre franquias musicais. Sem a Harmonix no desenvolvimento, a Activision passou a bola do desenvolvimento da série pra Neversoft, já responsável por jogos da série Tony Hawk, que no entanto, não teve acesso aos código-fontes dos jogos e teve que fazer tudo do zero. Já a Harmonix utilizou a experiência adquirida e lançou, em 2007, a única franquia que conseguiu encostar na qualidade de Guitar Hero: Rock Band, que seria distribuída pela Electronic Arts.
Rock Band deu uma sacolejada nos jogos musicais com novidades que já apareceram já no nome. O jogo não tinha apenas guitarra, mas uma banda completa. Dava pra juntar amigos e um ficar nos vocais, outro na guitarra, outro no baixo e um na bateria. Aliás, era a bateria a principal estrela do jogo, tão viciante quanto os dedilhados virtuais.
A briga foi boa. Guitar Hero recuperou o tempo perdido com World Tour e incorporou as novidades de Rock Band em sua jogabilidade e apresentou outras, como a customização de personagens e a criação de canções. Já Rock Band pegou pesado e lançou em 2009 um clássico desde seu nascimento: The Beatles: Rock Band.
A briga morreu praticamente em seu auge - muito devido a superexposição do produto e os lançamentos frequentes. Em 2010, as duas séries ganhariam seus últimos grandes títulos: Guitar Hero: Warriors of Rock e Green Day: Rock Band. Após as vendas fracas de Warriors of Rock, a Activision sem nenhuma cerimônia fechou a RedOctane e deu a Neversoft outros trabalhos depois da prematura morte de Guitar Hero.
Já Rock Band ainda ganharia Rock Band 3, de 2010, que não conseguiria repetir nem de perto o sucesso dos anteriores, mesmo com inovações como a chegada de teclados e o modo Pro, com uma forma mais realista de tocar os instrumentos. As vendas, com bastante dificuldade, chegaram perto das duas milhões de cópias e praticamente selaram a vida da série.
O último respiro do rock genuíno nos games foi Rocksmith, da Ubisoft, que apostou no realismo para tentar ressuscitar o gênero. Não deu certo, já que o jogo mais serviu como um curso para ensinar jogadores a tocar guitarra, do que em ser um game divertido propriamente dito. As vendas foram pelo mesmo caminho, com 900 mil cópias vendidas nas três versões do game.
Hoje os games musicais não são rock como há poucos anos. No máximo temos alguns jogos de dança que são mega sucessos - passageiros, apostamos. Títulos como Just Dance e Dance Dance Revolution. Divertem, mas passam longe do impacto cultural profundo de Guitar Hero e Rock Band, que chegaram a ser apontados como a salvação da indústria musical. Bandas tiveram suas vendas multiplicadas por 100 - caso da banda Dragonforce, graças a insana Through the Fire and Flames, praticamente o último chefão de um dos jogos da série - e artistas antigos puderam novamente pagar o aluguel de boa graças a royalties.
O impacto financeiro também veio na forma de vendas. Guitar Hero vendeu mais de 56 milhões de cópias (dados detalhados no VGChartz) em seus quase 50 lançamentos, e Rock Band vendeu quase 25 milhões de cópias (detalhes), sem contar as inúmeras músicas avulsas baixadas, acessórios, e outros produtos incorporados, que também foram alguns dos causadores da intensa saturação das duas séries.
O rock morreu nos games? Definitivamente não, mas atualmente espera por um novo momento grandioso.
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