Crítica: O Vingador do Futuro

1 2 3 4 5 Avaliação 3.00 (2 Votos)


Não é segredo pra ninguém que Hollywood, há certo tempo, já perdeu a vergonha de fazer remakes de filmes relativamente recentes produzidos em seus próprios estúdios. É como uma medida desesperada quando a vasta maioria das obras importantes já foram adaptadas e os principais personagens de quadrinhos já ganharam seus filmes - e a própria criatividade cada vez mais se esgota.
 
E até que chegamos ao remake completamente desnecessário de O Vingador do Futuro. O filme original é de 1990, portanto, não possui idade suficiente para não ser conhecido por toda uma geração. Além disso, é um clássico, dirigido por Paul Verhoeven e protagonizado por Arnold Schwarzenegger, que misturava ficção científica, ação, sarcasmo e humor, e pitadas de filosofia. Era o filme perfeito pra fechar a década de 1980, além de adaptar um conto de Philip K. Dick.
 
Não dava para repetir uma produção dessas, que conseguisse repetir toda a ambientação, piadas e ainda adiantasse conceitos que seriam amplificados em produções da importância de Matrix. E esse é o problema maior do filme: o peso de ser um remake, que soa datado e nem ousa sequer desfilar algum tipo de novidade.

 
Obviamente existem mudanças. A primeira delas surge logo nos primeiros segundos de filme. Um background narrativo que explica que uma guerra química inutilizou praticamente todo o planeta, e restaram apenas dois países: a Nova Bretanha (formada pelo Reino Unido e uma parte da França) e a Colônia (situada na Austrália), uma metáfora óbvia para pobreza e riqueza, exploração e todos esses conceitos que a tal geração Y conhece muito bem virtualmente. Além de também ser um pano de fundo para construir uma realidade decadente e um futuro em moldes distópicos - mas perfeitamente concebíveis. Enquanto os bretões são ricos, os colonos vivem a humilhação de viver em uma imensa periferia e ainda utilizam um sistema de transporte pra lá de complicado, chamado a Queda: uma espécie de elevador que passa pelo núcleo da Terra.
 
É nesse mundo que está Douglas Quaid, que sente que algo está errado e tem sonhos realistas em que é perseguido por parte da polícia. A solução para sair dessa rotina massacrante é utilizar um programa da Rekall, que é capaz de incluir memórias na cabeça dos que desejam o auto-engano. Ele escolhe receber lembranças de um espião. Mas as coisas acabam não saindo como deveriam, e ele se descobre um agente secreto real da Resistência da Colônia, que deseja condições de trabalho e melhores relações com os bretões.
 
As similaridades com o original param por aí - e no mais limitam-se a piadas visuais e aperitivos fetichistas, como a inesquecível prostitua de três peitos. O que se vê a seguir é uma explosão de cenas de ação, coreografias de luta e efeitos especiais. Tudo tecnicamente de primeira, mas com uma visível falta de conteúdo. O visual lisérgico e curiosamente futurista do original - com mutantes de Marte e veículos bizarros - dá lugar a um cenário sombrio, que mistura de forma brilhante Veneza, os subúrbios de Tóquio e as aglomerações de uma favela sul americana. Os robôs e as cidades lembram bastante - até demais - a concepção visual de Binary Domain, game que também mostra um futuro distópico, recheado de inovações tecnológicas e populações infelizes.

 
Esse clima sombrio resvala também no próprio protagonista do filme. Sai um Schwarza que não se leva a sério, mas esbanjou carisma ao segurar o filme sozinho, caso fosse necessário. Já Colin Farrel dá vida não a um Quaid inquieto, mas amargurado e questionador, muito mais identificável com os tempos atuais - e muito mais próximo do estilo de escrita profundamente distópica de Dick. O resultado é superior em realismo e "seriedade", mas perde em diversão e longevidade.
 
Somado a falta de originalidade, a furos preguiçosos de roteiro e a pouca vontade de qualquer inovação ou inventividade, O Vingador do Futuro versão 2012 é muitíssimo inferior ao original. Até o final dúbio da primeira versão é completamente limado e não deixa qualquer margem para especulações, ou com a vontade de assistir o filme pela segunda vez. É tudo mastigado nos mínimos detalhes, com todas as respostas dadas de bandeija - e ao menos tem duas gatas do cinema se enfrentando em lados opostos, Kate Beckinsale como a malvada e Jessica Biel como a lindinha ajudante da Resistência.

 
Se esquecido o filme original, esse O Vingador do Futuro é um filme de ação divertido que só perde ritmo em seu final, excessivamente cansativo, e com um visual de primeira e atores bem em seus papéis. Mas quando comparado ao filme de 1990, o que fica é um produto genérico, sem brilho, inovações ou qualquer ousadia - algo praticamente descartável.
 
 
Total Recall (EUA, 2012)
Diretor: Len Wiseman
Duração: 118 min
 
Nota: 5

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